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Análise: Streets of Rage 4

A nostalgia nunca esteve tão na moda, principalmente nos videogames. É só olhar para alguns dos recentes grandes sucessos que chegaram a indústria nos últimos meses. Os maiores expoentes dessa onda, claro, são Resident Evil 2 e 3 e Final Fantasy VII. Mas dentro deste mundo da saudade existia uma lacuna que ainda precisava ser preenchida, ainda faltava alguma coisa. E essa coisa era o resgate dos tradicionais jogos de “briga de rua” ou beat’em up para os que curtem termos em inglês. E essa espera terminou com a chegada de Streets of Rage 4 para Nintendo Switch, PlayStation 4, Xbox One e PC, com cooperativo online para duas pessoas e local para até quatro.

Foi preciso mais de duas décadas depois do último lançamento da franquia (Streets of Rage 3 chegou ao mundo em 1994) para que o título considerado por muitos o melhor de seu estilo voltasse às telas dos jogadores do mundo todo. Esta demora, para mim, tem um motivo e ela reside na dificuldade de se fazer um jogo de briga de rua em pleno 2020, a era em que os jogos precisam ter o máximo de conteúdo possível para “fazer valer a compra” (algo que eu discordo totalmente, mas não é assunto para hoje).

Diferente do que muitos pensam, Streets of Rage 4 não tem o dedo da SEGA, apesar de ter sua permissão. O novo título foi desenvolvido pela Lizardcube (Wonder Boy: The Dragon’s Trap) e Guard Crush Games (do interessante e ao mesmo tempo bizarro Streets of Fury) e publicado pela DotEmu (Another World). E a soma das suas expertises culminou em um Streets of Rage 4 que presta uma bela homenagem ao estilo e a franquia ao mesmo tempo em que a atualiza para os dias atuais.

Streets of Rage 4 é ambientado em Wood Oak City que está sofrendo nas mãos de uma nova gangue, liderada por Mr. Y e Ms. Y, irmão e filhos do Mr. X, vilão clássico da franquia. Assim, é hora de Axel e Blaze se juntarem aos novatos Cherry e Floyd para acabar de vez com a onda de violência e manipulação que assola a cidade. Claro que a história de Streets of Rage 4, assim como os títulos anteriores, não é nada especial. Aqui, novamente, ela é apenas um pretexto para que a porrada coma solta. E é exatamente nas mecânicas de luta que Streets of Rage 4 se reinventa e traz frescor para o gênero em pleno 2020.

Jogabilidade refinada

Bater nos capangas que aparecem pela tela deixou de ser um amassa botões para se tornar algo que até podemos chamar de “estratégico”, assim como abordamos os jogos de luta, guardada as devidas proporções, obviamente.  É necessário entender padrões de ataque e comportamento dos inimigos para saber a melhor forma de lidar com eles, não é apenas dar socos. Isso só foi possível pelo sistema de combos implementado para os personagens, sistema esse que se tornou central e faz com que todos os demais aspectos do jogo sejam direcionados para ele.

O jogador tem a disposição golpes normais, golpes especiais e os golpes-estrela. Com exceção deste último (limitados de acordo com a quantidade que o jogador possui), os golpes normais e especiais conversam entre si, proporcionando um “balé porradeiro” ao jogador. Para encadear combos, os golpes especiais e normais precisam ser alternados e um necessita do outro para continuar acontecendo. Explico: ao utilizar golpes especiais, a barra de vida do jogador é drenada e só é preenchida novamente se você acertar inimigos até que ela retome ao seu ponto de origem. Essa “conversa” entre os golpes incentiva o jogador a alternar os tipos de socos e pontapés ao mesmo tempo que se torna uma boa mecânica de risco e recompensa. Você pode ganhar muitos pontos, mas tomar dano durante um combo faz com que você perca todos os pontos acumulados naquela sequência. Além disso, existe um sistema de pontuação que, conforme você alcança determinados patamares, te bonifica com vidas extras e desbloqueio de personagens (há 12 personagens desbloqueáveis no jogo todo, incluindo versões em 16 bit dos jogos anteriores). E sabe qual é a melhor forma de conseguir muitos pontos? Executando belos combos.

Novo, sem esquecer do velho

Quando o assunto é visual e trilha sonora, Streets of Rage fica mais preso a suas raízes e, apesar do apuro gráfico, resgata muito o velho e bom Streets of Rage de Mega Drive. A arte e qualidade da animação da Lizardcube, que já havia impressionado com o também lindo Wonder Boy: The Dragon’s Trap, é de encher os olhos, criando contraste entre personagens desenhados lindamente a mão (e com um tamanho ótimo em tela) com cenários carregados de neon e o bom e velho cinza da cidade.

Mas não dá para falar de Streets of Rage sem tocar no assunto música, talvez um aspecto dos primeiros jogos que é lembrado até hoje, tamanha a qualidade da trilha daquela época. É aqui que Streets of Rage 4 não brilha tanto, porém entrega algo competente. Para compor a música do jogo, o compositor principal Olivier Deriviere convidou nomes consagrados da indústria como o compositor da trilha dos jogos originais, Yuzo Koshiro para trabalhar em algumas trilhas. Apesar de boas, as músicas em Streets of Rage 4 não possuem o mesmo impacto que seus antecessores, que trouxeram o eletrônico aos videogames quando o estilo musical possuía um contexto relevante para a época. O que, nitidamente, não é o mesmo cenário dos dias atuais. Mas se você não gostar, há a opção de jogar com as trilhas retrôs dos dois primeiros jogos. Olha que legal!

Streets of Rage não é um jogo longo e isso não é um demérito, já que prolongar uma experiência de beat’em up além do necessário é um verdadeiro tiro no pé. Mas o fator replay incluído no título é grande. Isso é motivado pelos diversos modos existentes e, obviamente, pela oportunidade de desbloquear outros personagens.

Além do modo História com cinco opções de dificuldades, Streets of Rage 4 possui um modo Seleção de Fases, para o jogador poder jogar as fases aleatoriamente nas dificuldades já desbloqueadas em busca de mais pontos; Arcade, que nada mais é que o modo História, porém com uma quantidade limitada de vidas (game over significa recomeçar da primeira fase); o modo Ataque de Chefões, em que você enfrenta todos os chefes do jogo em sequência e o modo Luta, um verdadeiro PVP em uma arena entre você e um amigo.

Enfim, Streets of Rage 4 já é um dos melhores jogos do ano, seja você um grande saudosista da série ou até mesmo um novo jogador. Ele injetará em você as grandes lembranças da franquia como também promoverá o desafio e a novidade em um exemplo de como revigorar um gênero difícil de ser renovado.

* Esta análise foi produzida por meio de um código de PC enviado pela assessoria de imprensa do jogo no Brasil

Veredito

Streets of Rage 4

  • Lançamento: 30/4/ 2020
  • Desenvolvedora: Lizard Cube e Guard Crush Games
  • Publicadora: DotEmu
  • Plataformas: PS4, Xbox One, Switch e PC
  • Genêro: Beat’em Up