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Opinião: Sony está certa em ficar de fora da E3

A Sony pegou todo mundo de surpresa quando anunciou que não participaria da edição da E3 em 2019.  Com isso, a mais tradicional feira de jogos eletrônicos, que acontece todos os anos no mês de junho em Los Angeles, ficaria sem um de seus principais pilares para o espetáculo – a fabricante do popular Playstation.

Na ocasião, Shawn Layden, chairman da Sony, afirmou que um dos motivos era que a empresa não queria “criar expectativas altas e não entregar”. As conferências de 2017 e 2018 da companhia japonesa haviam sido muito criticadas pela falta de conteúdo novo e impactante.

Na E3 de 2020, pela segunda vez consecutiva, e no ano em que colocará na praça o Playstation 5, não haverá participação da companhia. Isto sugere que, muito além de questões pontuais, a atitude indica um caminho sem volta – para a Sony e para a própria E3.

No decorrer da evolução da indústria de videogames, os processos de produção, divulgação e distribuição de jogos ficaram mais complexos e caros, o que inevitavelmente implica riscos financeiros maiores para os envolvidos.

Não só são processos mais caros e complexos, como também demandam mais tempo, dependendo da ambição criativa e/ou tecnológica e das metas de venda da empreitada.

Ajustar todo esse calendário de etapas de lançamento de um produto e adequá-lo a um evento anual, não só acaba se tornando uma insanidade do ponto de vista produtivo – já que diferentes projetos demandam diferentes cronogramas –  como leva à questão essencial: a dona do conteúdo, não deveria ser, afinal, a dona da agenda?

Espremer todo um cronograma de produções e lançamentos numa única data em uma conferência que dura poucos dias e que bombardeia o público com uma série de informações (muitas vezes irrelevantes), parece desperdício de tempo dos criadores e investidores.

A Sony tem investido cada vez mais em eventos proprietários, como a Playstation Experience, em que ela define quando e como fazer seus anúncios, centralizando os holofotes sem dividi-los com outras marcas e produtos concorrentes, garantindo que a mensagem chegue de maneira muito mais assertiva ao público alvo e ainda por cima economizando (estar na E3 é muito mais caro do que sediar seu próprio evento).

Mesmo a Microsoft, que ainda estará na E3 2020, também está investindo em conferências próprias, fora do calendário da E3, a exemplo do XO19, guardando para a ocasião parcela importante de informações acerca do ecossistema Xbox.

A E3 como a conhecemos desde 1995 – o principal e mais importante palco de anúncios e revelações das próximas tendências nos jogos eletrônicos – vai acabar. Ela precisará se redefinir, talvez indo para um caminho de evento de experiência, em que as pessoas poderão colocar as mãos pela primeira vez nos produtos anunciados pelas grandes marcas em seus eventos próprios.

Renan Martins
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